Capítulo 1 Não se preocupe demais
Jiang Xia afastou suavemente as folhas secas com a ponta do pé, fitando no solo a marca meio ressequida de um sapato enlameado.
O dono da pegada devia calçar cerca de 43, o que corresponderia ao tamanho 265 nos padrões japoneses; o desenho era de ranhuras antiderrapantes, com as bordas já gastas.
Adiante, outros rastros semelhantes se desenhavam no chão.
Jiang Xia sabia que, na verdade, aquilo era a pisada de um ladrão de bolsas.
Naquele dia, Jiang Xia saíra de casa devidamente preparado, pretendendo tratar de seus próprios assuntos.
No entanto, a meio caminho, um telefonema do superior o desviou abruptamente — uma bolsista importante da organização fora assaltada, e o chefe de Jiang Xia, o célebre e incansável “Gin”, lembrou-se de que ele conhecia bem a região, transferindo-lhe, de súbito, a tarefa de recuperar o objeto roubado.
Jiang Xia estacionou a moto sem grandes cerimônias e, seguindo as marcas de lama, avançou pela trilha deixada no solo.
Pelo fone junto à face, soou a voz fria e límpida de uma mulher:
— O ladrão é meio palmo mais alto do que eu, tem as pontas do cabelo tingidas de vermelho, e uma cicatriz de queimadura perto do polegar direito.
Miyano Shiho descreveu com notável minúcia e tom sereno, inalterável… nada se assemelhando a uma vítima recém-assaltada, ainda por cima atirada ao chão.
— Entendido — respondeu Jiang Xia. Ele conhecia bem os tipos daquela vizinhança; ao ouvir sobre o cabelo tingido e a queimadura, logo identificou o provável delinquente.
Estimou a distância:
— Devo recuperar a bolsa em pouco tempo. Cinco minutos bastam.
Miyano Shiho murmurou um “hm”.
Hesitou por um instante, querendo acrescentar um “tome cuidado”.
Mas, ao tentar falar, a chamada já fora encerrada, restando apenas o breve apito cortante do telefone, devolvendo o silêncio.
…
Miyano Shiho fitou em silêncio a tela escurecida do aparelho.
Sempre que Jiang Xia atendia Gin ou outro superior, aguardava respeitosamente que fosse o outro a desligar. Mas, desta vez…
Ainda que pudesse alegar a urgência do momento,
Miyano Shiho não se livrava da sensação de que, na verdade, Jiang Xia não suportava ouvir sua voz nem por mais um segundo.
…
Jiang Xia, alheio à complexidade dos sentimentos alheios, só ansiava por terminar aquele trabalho extra e retomar seus próprios afazeres.
Guardou o fone no bolso, contornou algumas esquinas do bairro intricado e parou diante de um antigo edifício de três andares.
O prédio, pintado de verde, era cercado por uma cerca baixa de arame, e a porta de entrada, trancada e já surrada pelo tempo, oferecia alguma segurança.
Embora, na prática, só servisse para inibir cidadãos de bem.
O olhar de Jiang Xia percorreu a fileira de caixas de correio, confirmando o número do apartamento do tal “Cabelos Vermelhos”.
Agarrou-se então à cerca — tão convidativa para ladrões — e, com destreza, subiu até o topo. No limite da grade, um impulso ágil: saltou, caindo silenciosamente na varanda do terceiro andar, pronto para uma investida justa contra o malfeitor.
Jiang Xia era um viajante de mundos, ordinário em sua essência; em sua vida anterior, chamava-se igualmente Jiang Xia.
Ao chegar àquele lugar, o novo corpo trazia nome semelhante, “Jiang Xia”, acrescido de um prenome local, formando o algo destoante “Jiangxia Tōji”.
O antigo ocupante desse corpo não gozava de saúde mental: ao chegar, Jiang Xia deparou-se com pulsos cortados, quase não escapando da morte.
Em compensação, herdara uma compleição física notavelmente treinada, com força e reflexos superiores ao comum — o que lhe trouxe certo consolo.
…
Embora os movimentos da mão esquerda ainda fossem algo lentos, o dom físico de Jiang Xia, com as benesses do universo de Conan, permitiu-lhe saltar para a varanda do ladrão em menos de cinco segundos.
Lá dentro, o “Cabelos Vermelhos” estava de costas para Jiang Xia, sentado diante da televisão. Ria estridentemente de um programa de variedades, enquanto contava notas de dinheiro.
O volume estava alto. Jiang Xia, sorrateiro, deslizou a porta de vidro, aproximou-se e desferiu um golpe preciso com a mão em forma de lâmina.
O riso estridente cessou abruptamente; o homem tombou de pronto.
A bolsa PRADA feminina caiu de suas pernas.
No mundo de origem de Jiang Xia, um golpe daqueles seria assunto de sorte — com alguma, a pessoa desmaiaria; sem ela, poderia ir direto ao crematório.
Mas no universo de Conan jamais se vira morte por golpe de mão: era como se todos tivessem um interruptor atrás do pescoço, bastando um toque para desmaiar.
Desviando do corpo desacordado, Jiang Xia recolheu o dinheiro espalhado, arrumou-o na carteira de Miyano Shiho e partiu com a bolsa recuperada.
Ao sair do prédio, consultou o relógio eletrônico no pulso: 15:49:57.
Restavam mais de quarenta segundos para cumprir os cinco minutos prometidos à Miyano Shiho.
Para matar o tempo, Jiang Xia acariciou um gato de rua que cruzava seu caminho. Exatamente aos cinco minutos, o celular vibrou.
— Gin enviara o endereço para o encontro.
Mal terminara de ler, a mensagem se autodestruiu, tal como o registro da última chamada — sempre envoltos em mistério.
…
Aquele chefe do submundo, forte como era, parecia exageradamente prudente…
Jiang Xia sacudiu a cabeça, ergueu-se, e, segurando a bolsa de Miyano Shiho, pôs-se a caminho do endereço indicado por Gin.
A Organização dos Homens de Preto, antagonista suprema do universo de Conan, sempre deixara nos que conheciam seus segredos uma impressão de mistério, ocultação e crueldade extrema.
E, conforme Jiang Xia pudera observar nesse período, tal reputação não distava muito da verdade.