Capítulo Dois: O Templo da Lótus Vermelha

Kaisar Biru Jing Ke Shou 3471kata 2026-03-11 14:33:25

Capítulo Dois: O Templo do Lótus Rubro

As palavras de Xi Yu fizeram o coração de Bai Qi estremecer.
— Fique tranquilo, seu pai domina técnicas de combate que poucos cultivadores de energia poderiam superar. Dez ou oito comuns não seriam seus rivais. Contudo, o método que ele cultiva está prestes a alcançar o estágio de Espadachim Celeste da Terra, e, nesse momento, enfrentará tribulações. Quanto ao destino, nem minha mãe ousa discorrer. Mas as tribulações dos guerreiros são bem menos severas que as dos cultivadores de energia; provavelmente, ele conseguirá transpor esse obstáculo.

Bai Qi pouco compreendia as questões dos cultivadores de energia, mas conhecia o título de Espadachim Celeste da Terra.
Os guerreiros cultivam o qi verdadeiro, dividindo-se em três estágios: Nove Graus Pós-Celestiais, Nove Graus Pré-Celestiais e Espadachim Celeste da Terra. Os de Nove Graus Pós-Celestiais são comuns como folhas ao vento; os de Nove Graus Pré-Celestiais já podem tornar-se grandes generais ou heróis do mundo das artes marciais.
Mas o Espadachim Celeste da Terra — Bai Qi ouvira de seu pai enquanto praticava a arte ancestral da lança —, ao alcançar esse estágio, seria capaz de voar pelos céus, percorrendo mil li em um dia. Sua longevidade se estenderia por mais de quinhentos anos, e nenhum exército do mundo poderia ameaçar tal guerreiro.

Pela fala de Xi Yu, para atingir o estágio de Espadachim Celeste da Terra é preciso passar por tribulações, as quais, quando comparadas às dos cultivadores de energia, são quase insignificantes. Seriam esses cultivadores realmente tão poderosos?

O coração de Bai Qi fervia de inquietação. Sem saber quanto tempo voara, sentiu sob os pés uma vibração; Xi Yu soltou sua mão e disse:
— Irmão Bai, pode abrir os olhos agora.

Bai Qi ainda não os abriu, mas já percebia o frio penetrante. Sendo um guerreiro de Primeiro Grau Pós-Celestial, sabia que, para sentir frio, deveria estar em um ambiente gelado. Ao abrir os olhos, viu uma crista coberta de neve. As nuvens eram cinzentas, e à sua frente erguia-se um precipício abrupto, onde se assentava um templo.

Estacas de madeira cravadas nas paredes sustentavam as construções do templo, cujos muros rubros e telhados de cerâmica esmaltada reluziam sob a luz opaca. Escadarias íngremes, sinuosas e irregulares, subiam pela face da rocha.

— Onde estamos? — indagou Bai Qi.

— No Templo do Lótus Rubro. Os monstros de outros lugares parecem perigosos, mas aqui há muitos, já domados pelo budismo; não ousam mais devorar homens. Irmão Bai, não diga nada quando entrarmos. Direi que você é meu irmão.

Bai Qi assentiu. O dragão de grama já desaparecera, assim como o banco que o transformara. Bai Qi não tinha ânimo para perguntar; sabia que Xi Yu não o trouxera ali apenas para ver monstros.

O Templo do Lótus Rubro, edificado sobre o precipício, não esperava receber devotos. Bai Qi subiu os degraus de pedra, escorregadios de gelo.
— Segure minha mão — disse Xi Yu, estendendo-lhe a mão. Assim, com segurança, subiram até a entrada do templo.

Ao chegarem ao pátio, Xi Yu soltou a mão de Bai Qi e bateu no anel da porta. Logo, ouviu-se um rangido, e a porta se abriu, revelando um rosto feroz. Todos os pelos daquele rosto cresciam horizontalmente; o osso da testa era proeminente, e os olhos redondos, como argolas de bronze. As têmporas eram crespas, mas o topo da cabeça reluzia de brilho oleoso — era um monge.

— Mestre Xi, vim com meu irmão pagar uma promessa — disse Xi Yu, entregando-lhe uma moeda octogonal.

O monge de expressão feroz aceitou a moeda, abriu a porta por completo e, sem dizer palavra, permitiu que Xi Yu e Bai Qi entrassem. Xi Yu esperou que o monge fechasse a porta, guiando Bai Qi por vários salões até uma austera cela monástica.

— Fiquem aqui. Apenas uma noite — disse o monge, com voz fina, quase como a de um eunuco.

Xi Yu puxou Bai Qi para dentro. O aposento era limpo e simples, mas o frio cruel fazia com que cada respiração se tornasse uma névoa branca.
O leito baixo parecia de origem estrangeira, coberto por alguns tapetes de palha. Diante da janela, duas grandes urnas de nuvens exibiam flores que Bai Qi não reconhecia. Era uma cela estranha: além dos tapetes, não havia vestígio do budismo.

Xi Yu puxou dois tapetes, sentou-se em um e entregou o outro a Bai Qi.
— O Templo do Lótus Rubro não foi fundado por monges. No início, era um santuário, mas não sei que divindade cultuavam. Depois, a seita secreta do Lótus Rubro tomou posse, domou os monstros da região e estabeleceu sua própria doutrina.

— Xi Yu, por que viemos aqui? — Bai Qi foi direto ao motivo, pois não acreditava que Xi Yu o trouxera só para ampliar seus horizontes.

— Ora... para furtar algo, claro! — Xi Yu piscou, com um ar travesso.

— Isso não é correto! — Bai Qi franziu o cenho. Não era um homem de estudos, mas, sendo descendente de um duque do Império Jin, não podia achar que furtar era justo. E, como Xi Yu dissera, os monges do templo domaram monstros; certamente não eram simples, e se roubassem algo importante, os monges não se importariam com o nome de sua família.

O monge que lhes abriu a porta exalava uma aura de morte. Bai Qi sabia reconhecer tal sensação — seu pai, Duque Yu Bai Jian, tinha sob seu comando mais de cem generais, todos acostumados à guerra, e mesmo aposentado, era seguido por uma dezena de guardas pessoais, homens que sobreviveram a montanhas de cadáveres e mares de sangue, cada um com milhares de inimigos abatidos.

Bai Qi sentiu no monge a mesma energia que irradiava dos guardas de sua casa.

— Irmão Bai, está com medo? — Xi Yu perguntou.

Bai Qi resmungou, sem responder. Tinha medo, mas o espírito de juventude não lhe permitia admitir. E, se Xi Yu ousava, por que ele não haveria de tentar? Com esse pensamento, Bai Qi deixou que Xi Yu conduzisse o plano.

Ao ver a atitude de Bai Qi, Xi Yu sorriu, radiante.
— Disse que viemos pagar uma promessa; o ritual para monstros só ocorre após o nascer do sol, no salão principal. Temos que passar uma noite aqui; esta noite será nossa oportunidade. Depois, montamos o dragão de grama e partimos. Os monges nada poderão fazer.

— E se nos perseguirem? — Bai Qi indagou.

— Irmão Bai, o Império Jin venera o dao há três gerações; os cultivadores de energia dominam a corte. Agora, dizem que nomearão um Mestre Nacional. Os monges não ousam causar tumulto dentro do Império Jin. Se voarmos de volta, não há perigo de perseguição.

Vendo que Bai Qi ainda hesitava, Xi Yu acrescentou:
— O objeto que procuro, os monges do templo não conhecem. Se não chamarmos atenção, a ausência talvez nem seja notada.

Sem alternativa, Bai Qi assentiu. Já estavam ali, voltar sem nada realizar seria inútil. Saíra para ver se o mundo tinha as maravilhas descritas nos livros; não descobrir nada o deixaria insatisfeito.

Bai Qi sempre apreciou contos de mistério e lendas, mas, por seu pai e família, dedicou-se por dez anos aos textos clássicos. Começou a estudar aos cinco, e agora, aos quinze, a curiosidade era intensa. Por isso, concordou com o plano de Xi Yu; se fosse seu pai, Bai Jian, teria matado Xi Yu sem hesitar.

Lidar com forças sobrenaturais não era função digna de um duque.

O tempo passou, e, ao cair da noite, Xi Yu guiou Bai Qi para os fundos do templo. O Templo do Lótus Rubro oferecia uma refeição vegetariana, mas os monstros que vinham devotar-se não tinham estômago para comida de monge. Xi Yu conduziu Bai Qi por dois pátios, e Bai Qi percebeu que o templo era, de fato, uma adaptação de antigas construções, mantendo estilos da dinastia anterior, pouco condizentes com um templo budista.

No pátio havia um grande tanque de água; Xi Yu pediu que Bai Qi se aproximasse. Mal se acercou, Bai Qi assustou-se: três ou quatro peixes saltaram do tanque, bocas abertas exibindo dentes afiados e um cheiro de sangue. Uma delas arremessou-se ao seu rosto; Bai Qi sacou a espada e golpeou, devolvendo o peixe ao tanque.

Xi Yu puxou Bai Qi para trás.
— São peixes-demoníacos, ainda não domados. Quando veem humanos, querem devorá-los.

Bai Qi ficou atônito. Sua espada era forjada de ferro frio do mar profundo; um golpe com toda sua força partiria pedra ao meio, mas o peixe-demoníaco só exibiu uma marca pálida na cabeça, quase imperceptível.

Seria o peixe-demoníaco mais forte que os guardas de sua casa?

Xi Yu não explicou, apenas conduziu Bai Qi por corredores tortuosos até um pátio arruinado, distante do precipício e adentrando a montanha. Acima, uma vasta fenda deixava entrar um pouco de luz. No canto do pátio, havia um poço. Xi Yu segurou Bai Qi com firmeza e foi até a beirada; preparava-se para saltar, mas Bai Qi a deteve.

— Irmão Bai, o objeto está lá embaixo.

A boca do poço era negra, exalando vento frio. Bai Qi olhou para baixo, sem enxergar o fundo. Próximo ao poço, nada era estranho, mas, ao se aproximar da borda, ouviu, no vento, lamentos e choros, como se o abismo abrigasse incontáveis almas penadas.

Bai Qi tocou a espada na cintura, inquieto, e seguiu Xi Yu para dentro do poço. Seu olhar era firme, mas o suor escorria, absorvido pelo fio envolto no punho da espada, tornando a palma pegajosa. Treinava esgrima desde os seis; nove anos de prática tornaram seus olhos imunes ao medo, mas o corpo ainda reagia involuntariamente.

Ah, se ao menos fosse um guerreiro Pré-Celestial, pensou Bai Qi. Esses guerreiros controlam cada parte do corpo; jamais suariam nas palmas, o que poderia fazer a espada escapar das mãos.

No fundo do poço, a névoa era densa, o frio cortante. Bai Qi circulou seu qi verdadeiro, mas ainda assim arrepiou-se.

Felizmente, o perfil de Xi Yu era claro, dançando à sua frente com o vestido verde entre a névoa. Bai Qi sorriu, surpreso consigo mesmo: estaria ele a tomar Xi Yu como apoio?

— Chegamos — disse Xi Yu, parando subitamente. Bai Qi executou um salto no ar, mas Xi Yu segurou-lhe a cintura e o amparou suavemente. O poço era profundo; se caíssem, Bai Qi certamente se feriria.

Agora, Bai Qi não temia. Era naturalmente inquieto, movido pela curiosidade. Os professores contratados por seu pai eram sábios e astutos, e Bai Qi, por influência, sempre ocultou seu lado impulsivo. Mesmo ao se aventurar, pensava no ponto de vista paterno, evitando grandes problemas.

Mas, hoje, sob o encanto de Xi Yu, sua natureza impulsiva veio à tona.

Que tesouro se esconderia sob este poço antigo e misterioso?