Capítulo 2: Está aí? Empreste-me um pouco de sua ferocidade
Na vida passada, Jiang Xia era, na verdade, um médium espiritual.
Evidentemente, como tal habilidade acompanha a alma, a rigor, mesmo após atravessar para outro mundo, ele continuava a ser um médium.
Contudo, desde que chegou a este novo mundo, Jiang Xia não encontrava fantasmas.
Restava-lhe apenas a teoria, sem matéria-prima alguma, tornando sua aptidão de médium absolutamente inútil.
A pouca energia que lhe sobrara ao aterrissar fora inteiramente consumida para curar a depressão do novo corpo que habitava, pois o anterior dono tirara a própria vida.
Ao restaurar as funções cerebrais do novo corpo, Jiang Xia aproveitou para decifrar as memórias que Jiangxia Tongzhi deixara.
— Os pais de Jiangxia Tongzhi eram ambos membros de linha de frente da Organização, verdadeiros mártires oficiais.
Um ano antes, sacrificaram-se tragicamente, ambos esmagados por um caminhão pesado que capotara.
Ao receber a funesta notícia, Jiangxia Tongzhi correu ao local do acidente, chegando justamente a tempo de presenciar os restos humanos sendo lançados, pá após pá, em sacos mortuários.
Devido à rotina atribulada dos pais, Jiangxia Tongzhi crescera sob os cuidados de uma respeitável babá, que lhe inculcou valores de bondade, verdade e beleza.
Quando cresceu um pouco mais, foi enviado para o treinamento da Organização, mas jamais conseguiu aceitar os métodos sanguinários da mesma; a incompreensão foi-lhe corroendo o ânimo, lançando-o numa depressão profunda.
Obedecia às ordens da Organização apenas para cumprir o desejo dos pais.
Quando, porém, mãe e pai subiram juntos aos céus, vítimas de um acidente repentino, Jiangxia Tongzhi desmoronou, incapaz de prosseguir sozinho, e escolheu a morte — nunca pensara em fugir; vira demasiadas vezes o destino reservado aos traidores e não desejava experimentar tal fim em carne própria.
...
Após atravessar para este mundo, Jiang Xia pesquisou a conduta da Organização diante de traidores e, de igual modo, não fugiu de imediato.
Primeiramente, porque ele ainda era demasiado fraco — boas habilidades de combate não significam invulnerabilidade. Afinal, trata-se de uma sociedade moderna, repleta de armas de fogo.
Além disso, dado o abrangente sistema de inteligência da Organização, tentar escapar significaria viver sob a constante ameaça de ser morto a tiros, explodido por uma bomba ou capturado para experimentos humanos.
Ademais, a vida atual tampouco lhe era insuportável.
No acidente que ceifou a vida de seus pais, alguns sobreviveram, e tais pessoas tratavam-no com gentileza.
Especialmente Miyano Shiho.
Miyano Shiho aparentava frieza, mas era de coração atencioso e, discretamente, ajudara Jiang Xia a evitar inúmeras missões insanas.
Os valores de Jiang Xia não eram tão intransigentes quanto os de Jiangxia Tongzhi, adaptando-se sem dificuldades à situação presente.
E havia ainda um detalhe.
—— Ele cobiçava a aura assassina de Gin.
A fonte do poder do ramo de médiuns a que Jiang Xia pertencia era, sobretudo, as almas deixadas pelos mortos e as intensas emoções negativas de certas pessoas.
Contudo, neste novo mundo, Jiang Xia descobriu, com desespero, que nada disso existia — absolutamente nada.
Almas...
Jamais encontrara sequer uma.
Emoções negativas...
Entre tantos membros da Organização, com passados sangrentos e mãos manchadas de crimes, todos mostravam-se surpreendentemente limpos, sem vestígios de mácula.
Não fosse, por vezes, o vislumbre da aura assassina que envolvia Gin, Jiang Xia teria crido ter perdido o dom de enxergar espíritos.
Durante longo tempo, Gin foi sua única esperança para ativar seu “dado de ouro”.
As oportunidades de ver Gin não eram muitas, mas Jiang Xia, sendo agora um membro periférico da Organização — um faz-tudo requisitado onde quer que fosse necessário —, conquistara mais confiança que outros integrantes de origens duvidosas.
Assim, não eram poucas as vezes em que encontrava Gin.
Embora, a cada encontro, só conseguisse recolher furtivamente uma leve porção daquela aura assassina, ainda assim, grão a grão, o montão cresce; melhor isso que nada.
Além do mais, aos olhos de Jiang Xia, Gin não era tão assustador assim.
Afinal, Jiang Xia já havia assistido ao anime “Detetive Conan”...
Crianças assistindo desenhos costumam ser vistas como desleixadas nos estudos, mas Jiang Xia, na época, recebeu permissão especial.
— Quando pequeno, viu dois episódios de Conan na casa de um colega e, depois, passou a evitar até lavar o rosto, temendo que, ao fechar os olhos, o temível “homem de preto” surgisse para esmagar-lhe o crânio; e, num corte súbito de cena, lá estaria ele, coberto de sangue no banheiro, aguardando a terrível escolha de três alternativas...
Seu mestre, ao descobrir, irou-se profundamente — um médium, temer até cadáveres de papel? Inconcebível!
Nem mesmo um jovem médium poderia agir assim!
Desde então, Jiang Xia ganhou uma nova atividade: combater o veneno com veneno, enfrentando o que temia.
O rigoroso mestre providenciou uma pilha de DVDs em alta definição do anime e, ouvindo dizer que a animação estava incompleta, comprou também dezenas de volumes do mangá.
No início, Jiang Xia ainda sentia medo.
Porém, após dois dias, adaptou-se, restando apenas alegria.
Ainda assim, Jiang Xia, autodidata, desenvolveu o talento de “atuar”: diante da televisão, tremia e se debatia, assim, enquanto os outros faziam lição de casa, ele podia assistir desenhos animados sem culpa — uma vida maravilhosa que perdurou por meses...
Médiuns têm, por natureza, excelente domínio sobre a própria mente.
Por isso, mesmo assistindo a um anime apenas uma vez, Jiang Xia conseguia recordar cada detalhe.
Assim, quando atravessou para este mundo e descobriu que seu vizinho chamava-se “Professor Agasa”, sentiu-se tomado por uma avalanche de emoções.
Quase elogiou o mestre por sua visão profética... mas Jiang Xia sabia bem que tudo não passava de uma coincidência, pois médiuns não possuem o dom farsesco de “prever o futuro”.
Contudo, se as coisas continuassem assim, talvez acabasse adquirindo essa habilidade — ainda que por meios ilícitos.
...
Com a carteira de Miyano Shiho em mãos, Jiang Xia caminhou sob o sol escaldante até a beira da rua, improvisou uma pequena sombra e, ao olhar ao redor, logo avistou, envolto pela penumbra do canto de um muro, um Porsche 356A preto.
Era o carro predileto de Gin — há anos recusava-se a trocá-lo.
Talvez não conduzisse apenas um automóvel, mas sim, um sentimento.
Ao lado do carro estavam dois homens, e parecia haver outro no interior, embora, devido aos vidros escurecidos, não fosse possível divisar claramente.
Os dois do lado de fora eram facilmente reconhecíveis: ambos altos, vestidos de negro, ostentavam extravagantes chapéus pretos.
Um de cabelos longos até a cintura, o outro, queixo largo e óculos escuros — eram Gin e Vodka, os principais antagonistas na eterna disputa de astúcia com o protagonista, incansáveis servos da Organização.
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Grandiosos leitores, peço-vos: não “adotem” este livro!
Sei que quanto mais curta a obra, menos prazerosa é a leitura.
Mas, da mesma forma, quanto mais breve, mais fácil é que ela “morra”.
Ao “adotá-lo”, talvez seja um adeus eterno! (Brincadeira.)
Enfim, se tiverem um instante, poderiam clicar no capítulo mais recente todos os dias? Nem precisam ler, basta clicar.
Imploro a vocês, Q-Q